Você sente como se estivesse observando o mundo através de uma bolha.
Nunca lhe disseram que ia ser fácil, mas você não pode imaginar o quão complexo é o processo de amadurecimento até começar a vivenciá-lo com sua mente e corpo. A vida parece acelerar em alguns pontos e desacelerar em outros, enquanto os mesmos eventos cotidianos tornam-se ainda mais regulares e seus dias cada vez mais iguais. Arrastados e, de modo inexplicável, rápidos também. Você aprende a prever o futuro e ele não é agradável.
Mesmo assim você não se abala. Está muito ocupado para isso, abstraindo-se da realidade nos universos que criou para fingir que o resto todo também é fictício. E não é. Da mesma forma que o planeta Terra também perde a cor, aquilo que te distraia também começa a tornar-se opaco e desaturado. Sem sentido. Você passa a vivenciar o ócio não pelo descanso, mas simplesmente por não desejar o incômodo que é fazer qualquer coisa, já que nada mais lhe parece compensador. Nem mesmo os sonhos.
Eventualmente você acaba ignorando as indagações que explodem na sua cabeça. O ser humano, feliz ou infelizmente, resiste o suficiente para conseguir empurrar os problemas para baixo do tapete e prossegue sem pensar naquela montanha de poeira que ficou mal resolvida lá atrás. Investir o esforço em criar algo talvez seja uma boa ideia, pois esse é um dos últimos hobbies que continua interessante. Até você se dar conta que não é tão bom quanto julgava ser naquela função.
Claro, você também tem que trabalhar. Um dia disseram-lhe uma vez que o trabalho dignifica o homem, mas então você percebe que a maior parte das pessoas felizes e que vivem confortavelmente trocou sua dignidade por tudo isso. Então o telefone toca e você atende. Tudo que escuta são pessoas lhe despejando um número infinito de ordens, agressões verbais ou simplesmente grunhidos mal educados e eventualmente repara na tendência humana de jamais agradecer pelo serviço prestado.
Aí você entra no ponto crítico. Resolve ligar a televisão, ou abrir o jornal apenas para perceber que o caos continua o mesmo. Os problemas fora da bolha se reinventam rápido o bastante para os culpados da semana passada serem ignorados e uma veia na sua testa desiste de latejar quando você finalmente aceita o mundo como ele é. Você tentou trilhar um caminho que respeitasse ao próximo, mas isso parece não ser mais exigência, então você vira um troglodita também. Percebe que seus antigos ideais já praticamente inexistem e os objetivos tornam-se vagos e pouco importantes. Seu ímpeto de tentar explicar o inexplicável e a vontade de corrigir as coisas que vê errado por aí acabam desaparecendo, pois os problemas são tão complexos que a única solução parece ser reiniciar o caos.
A essa altura, você já despreza a pessoa que se tornou. Você se envergonha do seu egoísmo, da sua prepotência, da sua arrogância e do seu patético senso de justiça. Você acaba aceitando sua própria insignificância e, por tabela, a insignificância dos outros. Você passa a simplesmente ignorar o debate e desiste de ter suas próprias opiniões sobre as coisas.
Nesse ponto você se torna um adulto e a bolha onde você vivia estoura.



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