Mãos ao alto! Isso é uma cena!
Há quem diga que gosta de beber para esquecer dos problemas. Outros dizem que preferem o gosto. Outros apenas entram na onda dos amigos. Pelo jeito daquela garota no meio da festa com um copo de vodka na mão, ela bebia por todos os motivos antes citados. Parecia sentir-se invencível, revigorada e livre de qualquer amarra de nossa realidade "medíocre". Falava e gesticulava bastante, contava seus problemas para todos os presentes - incluindo desconhecidos -, até mesmo aqueles que não se importavam com nada além de seu corpo bem torneado e bronzeado. Quando as coisas começaram a sair do controle, a confusão estava armada: mãos e unhas transformavam-se em armas de assassinato social tendo o álcool como combustível primário.
O público agrupava-se em círculo ao redor das garotas para ver a luta do século da festa entre uma namorada ciumenta e uma pseudo-invencível que acabava de receber um belo empurrão da adversária e foi parar longe de cabeça em uma quina de mesa. E em um segundo, o fim havia chegado. A caída se levantou e avançou na direção da outra mulher que estava parada, chocada com o que acabara de fazer, no entanto, ela simplesmente atravessou-a como quem cruza uma rua apressadamente. Sem saber direito como reagir, ela tentou uma nova investida igualmente frustrada como a anterior por conta de sua intangibilidade.
- Mas que porra é essa?! - berrou um dos homens que socorria uma garota caída. Será que ela havia derrubado outra pessoa? - Cara, a Juliana 'tá sangrando!
O que diabos estava acontecendo? Seu nome era Juliana! Olhou por sobre o ombro de sua aparente assassina e viu seu corpo ali, estirado no meio da festa com o barulho insano da música em suas orelhas. Sem entender direito, disse:
- Eu tô aqui! Olhem, bem e sem sangue...
Quando esfregou a mão na região indicada pelo homem que a socorreu, sentiu um líquido viscoso que torcia para não ser sangue. Demorou para analisar a própria mão e quando o fez, percebeu que a festa estava retrocedendo como um filme em DVD enquanto ela própria ainda estava "fora de si mesma". Deixou-se levar pela situação e começou a se "enxergar", as coisas que fazia e contava para todos, o modo como enfiava a cara na privada e evacuava todo o seu estômago com a potência de uma mangueira ou até mesmo como tinha coragem de enfiar a língua em bocas alheias, sejam masculinas, sejam femininas... Tudo isso de trás para frente. Nojo descreve bem o que Juliana sentia naquele instante de si mesma.
Até que o retrocesso cessou em um ponto: o início da festa, momento este em que estava completamente sóbria e na porta da boate com o convite em mãos. Sentiu um arrepio na espinha e em um piscar de olhos, lá estava, pronta para cair na noite e encher a cara, no entanto, com memórias extras de sua estranha "previsão". Um homem de barba por fazer que trajava blusa quadriculada virou-se e perguntou:
- Ju, tudo bem?
Hesitante, ela respondeu que sim, mas assim que ele entrou no lugar, ela pôs-se a andar na direção oposta, decidida de que não entraria ali para morrer.
|
0 comentários:
Postar um comentário