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| Obs: Texto redigido por mim em Julho de 2012. Recomenda-se ler escutando essa música em loop eterno. |
A poeira levantou com uma
ventania e a paisagem já quase invisível ficou oculta pela tormenta árida. O
sol queimava o couro cabeludo de Hicks por entre os fios de cabelo ruivos e assava
suas bochechas brancas e sardentas. Estava caminhando naquela mesma direção há
três dias e só encontrara meia dúzia de casebres abandonados e um grupo de
idosos para lhe acompanhar. Seu humor estava tão escasso quanto a água em seu
cantil e a conversa ao redor não tornava tudo muito mais suportável. Sete
homens e cinco mulheres lhe acompanhavam e pelo menos seis deles aparentemente
haviam saído da tumba depois que toda a confusão começou.
- ...foram os Alemães. Isso tem
cara de chucrute! – insistiu um deles, cuja careca enrugada parecia um segundo astro
rei na frente de Hicks.
- Oh, Harold, não seja tolo.
Todos sabem que a Alemanha não é mais um décimo do que foi um dia. – censurou a
mulher. - De onde tirariam meios para fazerem o que fizeram? Desde a Crise da
Liberação eles perderam toda a credibilidade.
Isso mesmo, Harold, seu tolo. Onde já se viu não se lembrar disso? Foi
no seu aniversário de 170 anos. Onde estava com a cabeça?, pensou Hicks
tristemente, imaginando se poderia se atirar em um barranco a sua esquerda, que
descia a uma vasta planície de terra rachada. Poderia não chegar a Londres no
tempo desejado, mas o faria com a sanidade ainda intacta. Lembrou-se do seu pai
dizendo para ter paciência com seus avós, pois estavam no fim da vida e não
sabiam mais administrar seus corpos e e raciocínio. Mas a situação em que estava
era completamente diferente de manter conversas longas, repetitivas e
exaustivas na mesa de jantar. Era apenas ridícula a idéia de pastorear aquele
grupo.
Vagavam rumo ao leste. Seguiam
apenas o Sol, pois não havia estrada nem trilha para se seguir. Apenas uma
infindável montanha de rochas e areia. Pelo visto, a área fora diretamente
afetada pela guerra, pois nenhuma planta ou ser vivo saía dali. Pelo menos até
o momento. Não pela primeira e nem pela segunda, mas pela sétima vez sentiu
algo tremer sob seus pés. E quando percebeu, já era tarde demais.
O réptil de cinco metros brotou
do chão como se fosse uma mola e uma nuvem de poeira se condensou e dissipou
quase imediatamente. Hicks, inexpressivo, olhou para o céu:
- Mas por que? – choramingou. –
POR QUE?
O lagarto avançou, não muito
rapidamente, rebolando o traseiro no chão. Era um animal gordo, considerando as
proporções. Talvez por isso não tenha atacado de imediato. Seus olhos
inexpressivos encararam o grupo de frente por um tempo, provavelmente procurando
a primeira vítima. O grupo (com exceção do garoto), retrucou com um olhar de
intensa ignorância. Estáticos e mudos não por medo, mas simplesmente por não
terem idéia de como se comportar naquela situação.
Passaram-se dez minutos até que
Seth, um velho parecido com um babuíno, cansou daquilo e avançou em direção a
criatura. Não parecia ter intenção hostil. Na verdade, não parecia ter intenção
nenhuma além de simplesmente caminhar. Hicks não teve audácia o suficiente para
impedi-lo. – suas próprias calças estariam molhadas, se sua bexiga não
estivesse completamente seca.
Mas foi aí que o incrível
aconteceu.
O homem cruzou pelo réptil, que
não interferiu. Não obstante, o animal virou-se e acompanhou o velho lado a
lado.
Um a um, idosos voltaram a se deslocar
ao redor do novo viajante. A conversa acalorada parecia ter voltado à pauta.
Hicks foi o último a se mover. Dez minutos depois.
Hicks foi o último a se mover. Dez minutos depois.





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