terça-feira, 5 de março de 2013

Hicks.


Obs: Texto redigido por mim em Julho de 2012. Recomenda-se ler escutando essa música em loop eterno.



A poeira levantou com uma ventania e a paisagem já quase invisível ficou oculta pela tormenta árida. O sol queimava o couro cabeludo de Hicks por entre os fios de cabelo ruivos e assava suas bochechas brancas e sardentas. Estava caminhando naquela mesma direção há três dias e só encontrara meia dúzia de casebres abandonados e um grupo de idosos para lhe acompanhar. Seu humor estava tão escasso quanto a água em seu cantil e a conversa ao redor não tornava tudo muito mais suportável. Sete homens e cinco mulheres lhe acompanhavam e pelo menos seis deles aparentemente haviam saído da tumba depois que toda a confusão começou.
- ...foram os Alemães. Isso tem cara de chucrute! – insistiu um deles, cuja careca enrugada parecia um segundo astro rei na frente de Hicks.
- Oh, Harold, não seja tolo. Todos sabem que a Alemanha não é mais um décimo do que foi um dia. – censurou a mulher. - De onde tirariam meios para fazerem o que fizeram? Desde a Crise da Liberação eles perderam toda a credibilidade.
Isso mesmo, Harold, seu tolo. Onde já se viu não se lembrar disso? Foi no seu aniversário de 170 anos. Onde estava com a cabeça?, pensou Hicks tristemente, imaginando se poderia se atirar em um barranco a sua esquerda, que descia a uma vasta planície de terra rachada. Poderia não chegar a Londres no tempo desejado, mas o faria com a sanidade ainda intacta. Lembrou-se do seu pai dizendo para ter paciência com seus avós, pois estavam no fim da vida e não sabiam mais administrar seus corpos e e raciocínio. Mas a situação em que estava era completamente diferente de manter conversas longas, repetitivas e exaustivas na mesa de jantar. Era apenas ridícula a idéia de pastorear aquele grupo.
Vagavam rumo ao leste. Seguiam apenas o Sol, pois não havia estrada nem trilha para se seguir. Apenas uma infindável montanha de rochas e areia. Pelo visto, a área fora diretamente afetada pela guerra, pois nenhuma planta ou ser vivo saía dali. Pelo menos até o momento. Não pela primeira e nem pela segunda, mas pela sétima vez sentiu algo tremer sob seus pés. E quando percebeu, já era tarde demais.
O réptil de cinco metros brotou do chão como se fosse uma mola e uma nuvem de poeira se condensou e dissipou quase imediatamente. Hicks, inexpressivo, olhou para o céu:
- Mas por que? – choramingou. – POR QUE?
O lagarto avançou, não muito rapidamente, rebolando o traseiro no chão. Era um animal gordo, considerando as proporções. Talvez por isso não tenha atacado de imediato. Seus olhos inexpressivos encararam o grupo de frente por um tempo, provavelmente procurando a primeira vítima. O grupo (com exceção do garoto), retrucou com um olhar de intensa ignorância. Estáticos e mudos não por medo, mas simplesmente por não terem idéia de como se comportar naquela situação.
Passaram-se dez minutos até que Seth, um velho parecido com um babuíno, cansou daquilo e avançou em direção a criatura. Não parecia ter intenção hostil. Na verdade, não parecia ter intenção nenhuma além de simplesmente caminhar. Hicks não teve audácia o suficiente para impedi-lo. – suas próprias calças estariam molhadas, se sua bexiga não estivesse completamente seca.
Mas foi aí que o incrível aconteceu.
O homem cruzou pelo réptil, que não interferiu. Não obstante, o animal virou-se e acompanhou o velho lado a lado.
Um a um, idosos voltaram a se deslocar ao redor do novo viajante. A conversa acalorada parecia ter voltado à pauta.

Hicks foi o último a se mover. Dez minutos depois.


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