Meus pulmões se encheram com a fumaça preta da última tragada e eu nunca me sentira melhor.
- Qual é a sensação de se
defumar de dentro pra fora?
Cuspi a bituca longe antes
de a mesma queimar meus lábios já cicatrizados e ponderei se deveria responder
ou não. Já conhecia Cachinhos Dourados há pelo menos oito anos, quando ele
ainda era um projeto de headbanger saindo da puberdade. Talvez para alguns de
vocês esse número represente tempo suficiente para se adquirir intimidade,
supondo que houvesse um relacionamento amistoso. Seria incorreto afirmar que ao
menos nos esforçávamos um pouco para conviver um com o outro. Mas naqueles
tempos, a necessidade falava mais alto.
- Seu vício não torna-se
melhor apenas porque seu fígado se regenera. – repliquei, assumindo o risco. Ao
contrário do que normalmente aconteceria, o cowboy de dois metros e meio na
minha frente não resolveu tirar vantagem dos seus braços que tinham,
aproximadamente, a mesma circunferência do meu tronco. Soltou uma sonora
gargalhada enquanto virava metade da garrafa de Jack Daniel’s goela abaixo.
- Bala na Cabeça. – eis
meu terrível codinome - Só temos que abrir caminho pelo leste por uns dois
quilômetros. Não me faça ter que trabalhar nisso sozinho.
Não era brincadeira, mas
Cachinhos Dourados jamais tentaria fazer algo contra mim. Principalmente se
isso significasse ficar sozinho no meio daquela única rocha cercada por uma
quantidade considerável de areia.
Acendi outro cigarro. Era
que o último que eu tinha no bolso e isso me deixou instantaneamente puto. Aquele invólucro de
papel carregando um câncer era uma das únicas coisas pelas quais ainda se valia
a pena lutar nos dias de hoje. Infelizmente o preço desses artigos de luxo tornou-se abusivo até para mim e assim
eu passei de um respeitável limpador de estradas aposentado, a um limpador de
estradas na ativa. Cachinhos Dourados foi meu parceiro, até o fatídico dia em que
tentamos matar um ao outro e acabamos na prisão estadual por algumas semanas.
Os oficiais acabaram nos liberando pouco tempo depois, após descobrirem que
dividimos os detentos em duas facções e pretendíamos travar uma guerra durante
o banho de Sol. Nunca mais nos vimos, até ele se meter em uma merda parecida. Cachinhos devendo até as cuecas em bares por todo o Estado e eu sem dinheiro para
minha nicotina. Voltamos aos nossos dias de luta, pois era a única coisa que
sabíamos fazer bem além de beber e fumar.
- Quantos minutos até o
despertar? - perguntei, sem tirar o cigarro da boca.
- Dois ou três. - respondeu
enquanto encarava o horizonte, onde a última linha de luz dourada começara a se
desfazer. Nesses poucos instantes entre o fim do dia e o início da noite, as
coisas começavam a acontecer. Pelo menos na minha época. "Quando o céu ficar vermelho,
o mundo ficará também", ou
uma merda macabra do tipo. Honestamente, desde que até o amanhecer do dia
seguinte eu tenha uns cinco maços no meu bolso, os noturnos serão a menor das
minhas preocupações.
- Vou colocar o CD. - anunciou
Cachinhos Dourados, e abriu a porta do caminhão. - Prepare o revólver.
Afastei o casaco com o braço e
levei à mão direita ao coldre atado às minhas costas. Senti a empunhadura da
arma com os dedos e puxei-a de lá como se fosse uma espada. Quase esqueci de
tragar a fumaça com a visão da arma prateada emitindo a única luz visível
naquele breu. Bom, a única luz visível até os refletores da carroceria acenderem
com um estalo, iluminando todo o trajeto até o pé da rocha em que havíamos
parado.
- VULGAR DISPLAY OF POWER! -
berrou Cachinhos Dourados, ao mesmo tempo em que socava o painel do caminhão.
Saltou da cabine com um machado ridiculamente grande em cada mão, ao mesmo
tempo em que uma guitarra distorcida explodia pelas caixas de som acumuladas
por toda a extensão da carroceria (levando para as cucuias todo e qualquer
senso de direção que eu me recordo possuir).
Olhei para ele e, mesmo sem
conseguir escutar uma única palavra do que dizia, lembrei daquele momento
peculiar: A contagem regressiva. Normalmente ele passava longe do tempo certo,
mas dessa vez por alguma razão, o exato momento em que sua boca desenhou o
"zero", a porra toda aconteceu. Digo, o céu ficou vermelho conforme o
prometido e aqueles bracinhos decrépitos e esverdeados começaram a cavar a
areia do chão, como nadadores querendo atingir a superfície. Em poucos
instantes, dezenas deles se libertariam de seu sono diário e avançariam rumo à
rocha - mais especificamente rumo à barulheira infernal vinda do caminhão.
Daquela distância eu conseguia enxergar pelo menos quinze correndo na nossa
direção. 200 pratas por cabeça. Era como tirar na loteria. O problema era
manter o número de cabeças esburacadas pelo meu revólver maiores do que as
escalpeladas pelos machados do outro. Sendo o outro aquele cara que brada
"UNDEAD MOSH PIT" como grito de guerra, eu acho que que ainda possuo
a vantagem de ser o único em um raio de vários quilômetros que consegue usar o
cérebro. Estou disposto a assumir o risco.
- EL MARLBORO. - berrei, e comecei a disparar.
- EL MARLBORO. - berrei, e comecei a disparar.





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