terça-feira, 5 de março de 2013

Vícios.




          Meus pulmões se encheram com a fumaça preta da última tragada e eu nunca me sentira melhor.

          - Qual é a sensação de se defumar de dentro pra fora?

          Cuspi a bituca longe antes de a mesma queimar meus lábios já cicatrizados e ponderei se deveria responder ou não. Já conhecia Cachinhos Dourados há pelo menos oito anos, quando ele ainda era um projeto de headbanger saindo da puberdade. Talvez para alguns de vocês esse número represente tempo suficiente para se adquirir intimidade, supondo que houvesse um relacionamento amistoso. Seria incorreto afirmar que ao menos nos esforçávamos um pouco para conviver um com o outro. Mas naqueles tempos, a necessidade falava mais alto.

          - Seu vício não torna-se melhor apenas porque seu fígado se regenera. – repliquei, assumindo o risco. Ao contrário do que normalmente aconteceria, o cowboy de dois metros e meio na minha frente não resolveu tirar vantagem dos seus braços que tinham, aproximadamente, a mesma circunferência do meu tronco. Soltou uma sonora gargalhada enquanto virava metade da garrafa de Jack Daniel’s goela abaixo.

          - Bala na Cabeça. – eis meu terrível codinome - Só temos que abrir caminho pelo leste por uns dois quilômetros. Não me faça ter que trabalhar nisso sozinho.

          Não era brincadeira, mas Cachinhos Dourados jamais tentaria fazer algo contra mim. Principalmente se isso significasse ficar sozinho no meio daquela única rocha cercada por uma quantidade considerável de areia.
          Acendi outro cigarro. Era que o último que eu tinha no bolso e isso me deixou instantaneamente puto. Aquele invólucro de papel carregando um câncer era uma das únicas coisas pelas quais ainda se valia a pena lutar nos dias de hoje. Infelizmente o preço desses artigos de luxo tornou-se abusivo até para mim e assim eu passei de um respeitável limpador de estradas aposentado, a um limpador de estradas na ativa. Cachinhos Dourados foi meu parceiro, até o fatídico dia em que tentamos matar um ao outro e acabamos na prisão estadual por algumas semanas. Os oficiais acabaram nos liberando pouco tempo depois, após descobrirem que dividimos os detentos em duas facções e pretendíamos travar uma guerra durante o banho de Sol. Nunca mais nos vimos, até ele se meter em uma merda parecida. Cachinhos devendo até as cuecas em bares por todo o Estado e eu sem dinheiro para minha nicotina. Voltamos aos nossos dias de luta, pois era a única coisa que sabíamos fazer bem além de beber e fumar.
          - Quantos minutos até o despertar? - perguntei, sem tirar o cigarro da boca.
          - Dois ou três. - respondeu enquanto encarava o horizonte, onde a última linha de luz dourada começara a se desfazer. Nesses poucos instantes entre o fim do dia e o início da noite, as coisas começavam a acontecer. Pelo menos na minha época. "Quando o céu ficar vermelho, o mundo ficará também", ou uma merda macabra do tipo. Honestamente, desde que até o amanhecer do dia seguinte eu tenha uns cinco maços no meu bolso, os noturnos serão a menor das minhas preocupações.
          - Vou colocar o CD. - anunciou Cachinhos Dourados, e abriu a porta do caminhão. - Prepare o revólver.
          Afastei o casaco com o braço e levei à mão direita ao coldre atado às minhas costas. Senti a empunhadura da arma com os dedos e puxei-a de lá como se fosse uma espada. Quase esqueci de tragar a fumaça com a visão da arma prateada emitindo a única luz visível naquele breu. Bom, a única luz visível até os refletores da carroceria acenderem com um estalo, iluminando todo o trajeto até o pé da rocha em que havíamos parado.
          - VULGAR DISPLAY OF POWER! - berrou Cachinhos Dourados, ao mesmo tempo em que socava o painel do caminhão. Saltou da cabine com um machado ridiculamente grande em cada mão, ao mesmo tempo em que uma guitarra distorcida explodia pelas caixas de som acumuladas por toda a extensão da carroceria (levando para as cucuias todo e qualquer senso de direção que eu me recordo possuir).
          Olhei para ele e, mesmo sem conseguir escutar uma única palavra do que dizia, lembrei daquele momento peculiar: A contagem regressiva. Normalmente ele passava longe do tempo certo, mas dessa vez por alguma razão, o exato momento em que sua boca desenhou o "zero", a porra toda aconteceu. Digo, o céu ficou vermelho conforme o prometido e aqueles bracinhos decrépitos e esverdeados começaram a cavar a areia do chão, como nadadores querendo atingir a superfície. Em poucos instantes, dezenas deles se libertariam de seu sono diário e avançariam rumo à rocha - mais especificamente rumo à barulheira infernal vinda do caminhão. Daquela distância eu conseguia enxergar pelo menos quinze correndo na nossa direção. 200 pratas por cabeça. Era como tirar na loteria. O problema era manter o número de cabeças esburacadas pelo meu revólver maiores do que as escalpeladas pelos machados do outro. Sendo o outro aquele cara que brada "UNDEAD MOSH PIT" como grito de guerra, eu acho que que ainda possuo a vantagem de ser o único em um raio de vários quilômetros que consegue usar o cérebro. Estou disposto a assumir o risco.
       - EL MARLBORO. - berrei, e comecei a disparar.

       

0 comentários: