- Olha, pelo que eu acho, você achou que chegaria até aqui sendo "O intocável", não é mesmo? Pois enganou-se, garoto. Foi detido pela lei e agora cumprirá pena em regime semi-aberto sob constante vigília. O que tem a declarar sobre?
O homem que articulava levou a bituca de cigarro à boca, sugou a nicotina restante e afundou-a em um cinzeiro disposto sobre a mesa. Em seguida, liberou todo o conteúdo no rosto do outro homem na sala. De aparência mais jovial e tranquila, o rapaz - assim ele podia ser chamado pelo seu rosto muito mal iluminado - tossiu brevemente e abanou a fumaça para longe do rosto. Com a voz cansada, disse de tal maneira que apenas o outro escutaria.
- Ninguém é intocável hoje em dia, sabia? Até mesmo aqueles que estão no poder podem ser cutucados por pessoas comuns.
- E você se acha essa pessoa comum, senhor Lucas? Você acha que tem o direito de importunar os outros com sua sabotagem patética à literatura? Nós somos a Academia Nacional. Houveram rebeldes como você antes. Lima Barreto, Aluísio... Acha que chegará ao nível deles? Hah, patético.
- O que te faz pensar que eu não chegarei, huh? - disse Lucas de forma debochada - As pessoas acreditam que não possuem super-poderes. Que não existe magia neste mundo. Pois eu discordo - debruçou-se um pouco sobre a mesa e apoiou os cotovelos - As palavras são a maior dádiva do ser humano. Com capacidade de criar incríveis universos e instigar nossa imaginação como nos assustar com contos macabros e nos causar medo. Podem distorcer a verdade para que se torne a mais palpável mentira, assim como fazer o inverso. Eu digo que todos somos super-poderosos, senhor Vasconcelos. Pena que alguns de nós ainda não perceberam isso. E é esse meu objetivo: mostrar à eles do que são capazes. Do que podem fazer - e abriu as mãos, como se segurasse uma delicada esfera de vidro invisível - Do que tem em mãos, mas esquecem por conta das tarefas do dia-a-dia.
O homem riu diante do discurso do garoto.
- O verdadeiro poder das palavras reside apenas com os talentosos. Se ela fosse algo de livre acesso, haveria muito mais conteúdo por aí. Hoje em dia, muitos desprezam as palavras e a maior aprovação disso é o Twitter - reclinou-se e revelou uma enorme papada sobre o colarinho de sua blusa e dentes amarelados em um sorriso debochado - Afinal, hoje é a geração do instantâneo. Se você não conseguir reduzir seu pensamento a 140 caracteres, você não merece ser ouvido, no fim das contas. As palavras são poderosas, mas exclusivas aos grandes.
- Não, senhor Vasconcelos. Enquanto estou aqui, a sabotagem continua. Em blogs, fóruns de debate, redes sociais... Existe todo um movimento do qual a Academia - Lucas aplicou um tom de voz debochado ao proferir tal nome - não toma conhecimento. E apenas assume sua grandiosidade quando o público começa a reparar, para que não gere comoção ou "por quês". Eu ficarei sob condicional, mas não a sabotagem. Pode ter certeza disso.




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