terça-feira, 5 de março de 2013

Sonhos.

Mãos ao alto! Isso é uma cena!



     Sabe, desde os oito anos eu tenho um grande e estranho medo, o de dormir. Incomum, não? Pois é, desde aquela época possuo grandes problemas em simplesmente fechar os olhos e acordar no dia seguinte totalmente revigorado. Rolo para lá e para cá, vejo a luz da lua oscilar por sobre meu corpo por culpa das persianas entreabertas, ouço todo e qualquer barulho suspeito em meu apartamento, começo a pensar na vida e nas coisas que deixei de fazer por medo... Mas como deve saber, as pessoas podem morrer por falta de sono e, é claro, eu acabo dormindo. E confesso que não é o melhor descanso, pois toda vez é o mesmo pesadelo, mas com um arranjo diferente. As mesmas pessoas, mesmas situações e mesmo desfecho, no entanto, o caminho que me leva ao fim é sempre outro. Até imagino que seja uma lembrança reprimida ou totalmente embaralhada com várias outras e quando começo a recordar da "cena" original, tudo muda. Exemplo: se eu reparar que uma determinada caneca de café branca com a marca de uma mão na cor azul não era para estar ali, o sonho muda. E o mais incrível, eu consigo sentir a mudança ocorrer bem diante dos meus olhos por causa da dor. Houve uma época em que me tornei obcecado por isso, passei noites em claro com medo de dormir, mas ansiando pelo meu próximo pesadelo. Eu queria decifrá-lo. Queria saber a verdade.
      E é claro que minha esposa não entendeu.
      Foram dois longos meses no tribunal no combate pela guarda de Heitor, meu único filho. Nele, médicos estudaram o meu caso e tentaram colocar-me como o mais apto para criá-lo ao invés dela, que era compulsiva-obsessiva por trabalho. Ambos tinham bons argumentos, no entanto, ela venceu quando apontou o histórico de problemas mentais da minha família e me colocou como possível portador da mesma condição, tornando-me completamente inapto para cuidar de uma criança de cinco anos sozinho. Jamais esquecerei suas palavras quando ela tomou Heitor nos braços e deixou a quente sala do tribunal que tratava do nosso caso.
      "Eu espero que fique preso em seu mundo de sonhos, Júlio."
     E aqui estou. Buscando alguma verdade - se é que existe - oculta em meus sonhos, memórias, seja lá o que for. Agora moro sozinho e tenho poucas coisas. Uma televisão, um sofá, uma mesa de centro repleta de pratos sujos e latas de energético vazias. Uma cama igualmente bagunçada e um armário. Tudo o que me importa são eles. A algum tempo, fiz uma descoberta na internet que outros casos desta mesma condição se repetiam ao redor do mundo, como um tipo de padrão estranho. Pacientes com estágios avançados ficam muitos dias sem dormir e quando o fazem, tem pesadelos horríveis, convulsões e paradas cardíacas; acordam balbuciando sobre fim de mundo, viagens no tempo e previsões do futuro incerto.
      Encontrei alguns blogs que ensinavam como "manipular" os sonhos. Todas as primeiras cinquenta tentativas foram frustradas... Mas a quinquagésima primeira foi uma surpresa.

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Bastidores: Bom, eu não sei de onde esta ideia surgiu, mas deve ter origem no que o primeiro autor convidado para o Sabotagem Literária me disse certa vez. "Temos que sair da nossa zona de conforto". Esse é o objetivo que tentei alcançar neste pequenino conto que, dependendo da minha vontade, criatividade e disposição, pretendo tocar adiante e inaugurar a parte "Séries" do  SL (sigla para o nome do blog). Nada muito certo, portanto não esperem tanto de algo que talvez possa sequer existir. Uma ideia é como uma joia: precisa ser lapidada. E, na minha cabeça, a ideia bruta parece ser bem interessante, no entanto, tenho que trabalhá-la para que seja digna de uma postagem aqui no SL, pois nos importamos muito com o conteúdo.

No mais, aproveitem a leitura.

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