
(Está não é uma sequencia dos fatos, mas por ser ambientada no mesmo universo e ter uma certa conexão, eu recomendo ler antes o conto Vícios para ter uma ideia um pouco mais ampla da ambientação. Mal aí, Lucas... Eu disse que não ia me comprometer com nenhum tipo de sequencia longa, mas não pude evitar.)
Miranda virou o copo recém
enxaguado de boca para baixo e o colocou junto aos demais alinhados na pia de pedra. Era final de tarde, e assim como a noite que se aproximava em passos
ligeiros, chegava também o final de seu turno. O bar estava completamente
deserto e rezou que assim permanecesse pelos próximos quinze minutos, pois as
regras do Buraco de Bala eram claras quanto a não abandonar um colega na
primeira hora de seu turno enquanto houvesse mais de dois clientes ao mesmo
tempo. Era uma grande idiotice, mas até então lhe permitira arranjar uma boa renda extra
no final do mês – ainda que a intenção fosse apenas ficar ali durante pouco
mais de um ano, manter as aparências de trabalhadora dedicada era essencial
para que pudesse desempenhar seu real ofício às escondidas.
Permitiu-se um bocejo preguiçoso
enquanto puxava uma flanela velha para esfregar as manchas de bebida mais
recentes de cima do balcão de madeira. Em sua cabeça, revisou mentalmente a
rota que deveria tomar por fora da cidade. Quase não percebeu os dois homens que
entraram no estabelecimento arrastando as botas sujas de poeira seca no chão
caprichosamente escovado. Rumaram até uma mesinha de ferro cujo aspecto dava a
entender que em um passado distante fora pintada de vermelho e largaram-se em cadeiras em estado igualmente
deplorável, solicitando duas doses do uísque mais vagabundo que havia ali,
famoso na região por custar menos do que a gorjeta - e também pelo seu
nome não oficial: Fazedor de Viúvas.
Miranda praguejou mentalmente e
soltou um suspiro baixo ante sua falta de sorte. Não disfarçou a carranca enquanto
levava a bandeja com os copos e ma tigela de ovas de rã até eles, que sequer
perceberam a irritação da mulher. Obviamente preferiram ater seus olhos na região
abaixo do pescoço e, quando a mesma deu meia volta, para os quadris. Não era
algo a que estivesse acostumada, mas após seis meses de prestação de serviços
naquele fim de mundo já aprendera a ignorar. Seu objetivo lhe fez suportar
coisas inimaginavelmente piores antes disso e, agora que conseguira encontrar
um rastro tênue daquilo que procurara pelos últimos cinco anos, não iria
deixar-se abater tão facilmente por meia dúzia de pervertidos por dia.
Durante meia hora os dois velhos
beberam o Fazedor de Viúves e jogaram
pôquer sem apostar nada, já que nem a dignidade lhes restava mais. Entediada e
aborrecida, Miranda alinhou as garrafas enquanto pensava no Anoitecer Vermelho
que estava perdendo. Teria que esperar pelos próximos sete dias uma nova
oportunidade de abrir caminho e isso significava nada mais do que uma semana
inteira sem os valores expressivos de recompensa por cabeça de noturno. Não
obstante, seria uma semana inteira sem progresso algum em seu objetivo. Tentou
evitar manter seus pensamentos nisso por muito tempo para que a ira não lhe
envolvesse completamente. Não fora aquilo que seu pai lhe ensinou. Procurou distrair-se
com coisas mundanas e pegou um trecho de conversa entre os dois homens (já
visivelmente alterados).
Obs:
Por motivos de compreensão geral, optei por transcrever o diálogo para algo
humanamente compreensível, e já considerando que os ouvidos de Miranda estão
acostumados aos efeitos do Fazedor de Viúvas
no que tange à comunicação verbal.
- Já ouviu falar nos novos
limpadores de Bordaleste?
- Novos? – zombou o outro. –
Aqueles dois não passam de duas carnes secas. Já foram usados até o bagaço.
- Está falando do Timão e Pumba?
- E há outra dupla de limpadores
tão escrota quanto?
- Um gigante com dois machados e
um pistoleiro psicopata. Quando eu estava tentando ganhar dinheiro nas minas, meus
parceiros só falavam sobre a faxina que fizeram durante toda a temporada de
noite vermelha em 42. Podem ser escrotos, mas definitivamente são talentosos.
- Talentosa é a minha... Aqueles
dois não passavam de imbecis perigosos, se quer saber minha opinião. Voltando a
agir em dupla depois de todo esse tempo e fortuna que provavelmente já
torraram, só significa que são ainda mais burros do que capacitados. Um dia tiveram
potencial como limpadores. Hoje não devem prestar nem pra tirar fora o esterco
da minha égua.
Gargalharam.
- Ei gostosa, me traz mais
umazinha!
Silêncio.
- Gostosa?
Miranda já cobrira uma considerável
distância entre o bar que abandonara e o casebre em que morava. Abriu
a porta com força e correu até o pequeno quarto escuro onde dormia. Enfiou a mão
em seu travesseiro sem cerimônia rasgando tanto fronha quanto recheio e sentiu
os dedos roçarem no metal frio. Puxou-o de lá e revelou um revólver prateado
brilhante.
- Está na hora de resgatar a sua
irmã.



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