quinta-feira, 7 de março de 2013

Miranda e os bêbados.




(Está não é uma sequencia dos fatos, mas por ser ambientada no mesmo universo e ter uma certa conexão, eu recomendo ler antes o conto Vícios para ter uma ideia um pouco mais ampla da ambientação. Mal aí, Lucas... Eu disse que não ia me comprometer com nenhum tipo de sequencia longa, mas não pude evitar.)

Miranda virou o copo recém enxaguado de boca para baixo e o colocou junto aos demais alinhados na pia de pedra. Era final de tarde, e assim como a noite que se aproximava em passos ligeiros, chegava também o final de seu turno. O bar estava completamente deserto e rezou que assim permanecesse pelos próximos quinze minutos, pois as regras do Buraco de Bala eram claras quanto a não abandonar um colega na primeira hora de seu turno enquanto houvesse mais de dois clientes ao mesmo tempo. Era uma grande idiotice, mas até então lhe permitira arranjar uma boa renda extra no final do mês – ainda que a intenção fosse apenas ficar ali durante pouco mais de um ano, manter as aparências de trabalhadora dedicada era essencial para que pudesse desempenhar seu real ofício às escondidas.
Permitiu-se um bocejo preguiçoso enquanto puxava uma flanela velha para esfregar as manchas de bebida mais recentes de cima do balcão de madeira. Em sua cabeça, revisou mentalmente a rota que deveria tomar por fora da cidade. Quase não percebeu os dois homens que entraram no estabelecimento arrastando as botas sujas de poeira seca no chão caprichosamente escovado. Rumaram até uma mesinha de ferro cujo aspecto dava a entender que em um passado distante fora pintada de vermelho e largaram-se em cadeiras em estado igualmente deplorável, solicitando duas doses do uísque mais vagabundo que havia ali, famoso na região por custar menos do que a gorjeta - e também pelo seu nome não oficial: Fazedor de Viúvas.
Miranda praguejou mentalmente e soltou um suspiro baixo ante sua falta de sorte. Não disfarçou a carranca enquanto levava a bandeja com os copos e ma tigela de ovas de rã até eles, que sequer perceberam a irritação da mulher. Obviamente preferiram ater seus olhos na região abaixo do pescoço e, quando a mesma deu meia volta, para os quadris. Não era algo a que estivesse acostumada, mas após seis meses de prestação de serviços naquele fim de mundo já aprendera a ignorar. Seu objetivo lhe fez suportar coisas inimaginavelmente piores antes disso e, agora que conseguira encontrar um rastro tênue daquilo que procurara pelos últimos cinco anos, não iria deixar-se abater tão facilmente por meia dúzia de pervertidos por dia.


Durante meia hora os dois velhos beberam o Fazedor de Viúves e jogaram pôquer sem apostar nada, já que nem a dignidade lhes restava mais. Entediada e aborrecida, Miranda alinhou as garrafas enquanto pensava no Anoitecer Vermelho que estava perdendo. Teria que esperar pelos próximos sete dias uma nova oportunidade de abrir caminho e isso significava nada mais do que uma semana inteira sem os valores expressivos de recompensa por cabeça de noturno. Não obstante, seria uma semana inteira sem progresso algum em seu objetivo. Tentou evitar manter seus pensamentos nisso por muito tempo para que a ira não lhe envolvesse completamente. Não fora aquilo que seu pai lhe ensinou. Procurou distrair-se com coisas mundanas e pegou um trecho de conversa entre os dois homens (já visivelmente alterados).

Obs: Por motivos de compreensão geral, optei por transcrever o diálogo para algo humanamente compreensível, e já considerando que os ouvidos de Miranda estão acostumados aos efeitos do Fazedor de Viúvas no que tange à comunicação verbal.

- Já ouviu falar nos novos limpadores de Bordaleste?
- Novos? – zombou o outro. – Aqueles dois não passam de duas carnes secas. Já foram usados até o bagaço.
- Está falando do Timão e Pumba?
- E há outra dupla de limpadores tão escrota quanto?
- Um gigante com dois machados e um pistoleiro psicopata. Quando eu estava tentando ganhar dinheiro nas minas, meus parceiros só falavam sobre a faxina que fizeram durante toda a temporada de noite vermelha em 42. Podem ser escrotos, mas definitivamente são talentosos.
- Talentosa é a minha... Aqueles dois não passavam de imbecis perigosos, se quer saber minha opinião. Voltando a agir em dupla depois de todo esse tempo e fortuna que provavelmente já torraram, só significa que são ainda mais burros do que capacitados. Um dia tiveram potencial como limpadores. Hoje não devem prestar nem pra tirar fora o esterco da minha égua.
Gargalharam.
- Ei gostosa, me traz mais umazinha!
Silêncio.
- Gostosa?


Miranda já cobrira uma considerável distância entre o bar que abandonara e o casebre em que morava. Abriu a porta com força e correu até o pequeno quarto escuro onde dormia. Enfiou a mão em seu travesseiro sem cerimônia rasgando tanto fronha quanto recheio e sentiu os dedos roçarem no metal frio. Puxou-o de lá e revelou um revólver prateado brilhante.
- Está na hora de resgatar a sua irmã.

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