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| Mãos ao alto! Isso é uma cena! |
O tique taque do relógio soava tranquilamente, fazendo as horas passarem como uma pequenina procissão daqueles em uma quietude controlada. Mal iluminado por luzes frias e que falhavam de hora em hora, o recinto assemelhava-se a um lugar assustador onde ninguém deveria estar; ninguém deveria enfrentar. Ao menos não sozinho.
Os bips pausados da máquina que marca os batimentos cardíacos da paciente estavam trabalhando. Enquanto funcionassem, o sangue seria bombeado por entre as artérias para todo o corpo, carregando hemácias de vida e frustração, mantendo a carne viva. Porém o cérebro mantinha-se entorpecido e em algum lugar estava a consciência daquela menina, mas com certeza não era ali, onde ninguém deveria estar sozinho. A respiração abafada da menina completava os tiques taques e bips de maneira melancólica, dando a impressão de que a qualquer minuto, ela podia falhar e os bips poderiam transformar-se em um único som: um apito. O assustador apito. O prelúdio para a partida do mundo de dor e desespero para a tão desejada paz.
Morte.
Sentado na cadeira ao lado da cama da menina, havia um homem. Cabelos castanhos levemente esbranquiçados bagunçados de maneira selvagem pela vida e seus acontecimentos. Ela privou-lhe de seu grande amor e estava querendo tomar-lhe outro. O único amor que mantinha sua pouca sanidade intacta, seu único solo seguro e seu único sentimento de vida fluindo por seu corpo. Olheiras fundas e olhos vermelhos, aquele homem apertava a mão delicada da menina, envolvendo-a com as suas. Havia uma peculiaridade: jazia uma luva negra de couro na mão direita do indivíduo, tal qual esta ele não fazia questão de tirar para sentir a pele suave de sua filha, temendo que isso o machucasse ainda mais.
Tão perto... Mas ainda assim, tão distante...
Era o pensamento que permanecia na mente do homem. Seus ombros pesaram, assim como sua cabeça. Os olhos começaram a arder, ameaçando lançar para o mundo exterior as mazelas que aquele indivíduo carregava no peito com tamanha força de vontade. Ou seria necessidade? Sentiu uma vibração no lado direito de seu corpo, seguido de uma melodia eletrônica.
A realidade estava chamando. Sacou do bolso da jaqueta seu telefone celular, antes conferindo o número que ligava. Roberto Abreu. Era o que dizia no visor colorido. Respirou fundo e tossiu duas vezes antes de atender.
- Martins.
- Preciso de você no Centro, Igor – disse Roberto.
- O que aconteceu?
- Fabiano Inácio foi encontrado morto na porta de seu edifício, no Centro – falou melancolicamente a voz do outro lado da linha. – Aparentemente ele caiu da janela de seu apartamento direto no meio fio.
Fabiano Inácio. Na mente do Detetive do Departamento de Homicídios de Niterói, Igor Martins, o nome do jornalista investigativo mais famoso do momento lhe trazia algumas lembranças, já que o salvou do perigo diversas vezes enquanto realizava suas matérias altamente perigosas. Não o considerava como “amigo”, mas seu falecimento lhe rendeu um calafrio assombroso. Como se a Morte estivesse por perto, pronta para tirar mais um pedaço de sua alma. Apertou a mão de sua filha enquanto respondia seu superior.
- OK – confirmou Igor. – Já estou indo. Onde está Helena?
- A caminho.
- Tudo bem – assentiu ele. – Chego lá em 10 minutos.
E desligou. Pensou em todos que poderiam considerar sua pessoa como um “amigo”. Infelizmente, Igor não se dava ao luxo de ter amigos, pois não queria presenciar novamente tudo que já tinha lhe acontecido em seus vividos 43 anos: dor, sofrimento, tortura, ódio. Aproximou-se da mão da menina e tocou com seus lábios em um beijo triste, onde tentaria enviar o que lhe restava de vida no peito para ela, na esperança de que houvesse um sopro de existência e a reanimação de sua consciência. Por mais que tudo que tenha a oferecer seja uma energia impura, tinha a expectativa do corpo da menina purificar tudo de ruim para algo puro, brilhante, cheio de vida.
- Eu te amo, Luisa, meu amor... Papai já volta, tá bom? Fique bem, pequeno anjo.
E assim, hesitante, Igor largou a pequenina mão de sua filha Luisa. Levantou-se da cadeira e deu uma última olhada. Sua filha tinha apenas treze anos. Seus cabelos longos e castanhos claros estavam bagunçados sobre a colcha branca hospitalar, desenhando uma estranha estampa sobre esta. Seus olhos fechados e sua boca coberta pela máscara de gás. Ferimentos leves em regeneração estavam à mostra em seus braços e em seus lóbulos. Sua expressão era serena, passiva, silenciosa. O único barulho produzido pela menina era o de sua respiração. Seu sopro de vida. Sua esperança.
Sorrindo, Igor se virou, empunhando a maçaneta com a mão enluvada, secando as lágrimas com a manga esquerda da jaqueta e transformando completamente sua expressão enquanto deixava o quarto do hospital onde Luisa Andrade Martins era mantida. Ao bater a porta, todas suas fraquezas, dores e incertezas eram enterradas no fundo de seu peito, dando lugar a poder, resistência e certezas.
Havia um caso para resolver e um sádico para capturar. Toda a atenção era necessária.
Foco, Igor. Foco.
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Bastidores: Esse foi o prólogo que escrevi para uma de minhas muitas histórias, no dia 8 de Janeiro de 2012. Infelizmente, como quase tudo em que me engajo no quesito "literatura", deixei o projeto de lado por falta de tempo, criatividade, pura procrastinação ou falta de confiança em minha própria narrativa. No entanto, talvez eu volte a escrever essa história que, de certo ponto, é até interessante e boa para que eu possa exercitar outros estilos narrativos (por mais que o Raffael ache que estou na zona de conforto). E sobre o texto "Sonhos", a continuação poderá ou não chegar por aqui até o final da semana.
E, como sempre, aproveite a leitura, aponte erros e critique. Sinta-se livre para isso. (:




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